segunda-feira, dezembro 31, 2007

QUATRO ELEMENTOS NO ATO CRIADOR...






TERRA

Meu barro te criou, minha argila fez tua morada,

tua comida gerei em minhas entranhas.

Rígido às vezes, macio sou quase sempre; meu solo é fértil e firme.

Sabes bem, em mim podes confiar;

sou teu apoio, o porto seguro onde podes atracar!

Crio montanhas para dar alegria aos homens,

apoio os lagos e cerco os mares, em toda a parte estou !

Empresto meu nome a teu lar cósmico,

mas não me limito apenas a este planeta,

estou em todo o universo!

Sou a chão que pisas, a base de onde dá teus saltos na vida,

faço florescer teu sonhos, mas crio castelos verdadeiros em meu reino,

estou ao teu redor para que plantes tuas idéias.





FOGO



Nas chamas eu vibro,

em meu calor tu crias,

aqueces e brilha na escuridão.

Leva minha luz e ilumina a ti e aos que te cercam;

comigo podes contar para levar calor

ao coração dos homens.

Sou tua brasa interna, a paixão, a fúria,

a estrela cadente ao cortar os céus;

sou e serei você quando fizeres sucesso !





ÁGUA



Eu te embalo em meus braços, carinhoso e amigo.

Se flutuares em mim, prometo, relaxo-te e te despreocupo.

Sou a paixão correspondida, a leveza que descarrega a alma,

sou a avassaladora emoção pura,

sou aquele que liberta as lágrimas de alegria !

Sou também o mistério,

rígidamente sólido no frio,

líquido ao teu redor

e gasoso ao te cercares no suor da batalha.

Sou tua capacidade de te adaptares

aos diferentes momentos de tua vida!




AR



Eu te cerco e te toco, sente-me ao teu redor.

Nunca me agarrarás, afinal, arisco que sou,

refresco-te com minha carícia sem deixar nada de mim em ti.

Não te preocupes,

eu te lembrarei de minha presença no calor do dia a dia;

lá estarei eu quando teus cabelos se puserem a flutuar.

Entrega-me teus pensamentos e eu os levarei onde quiseres,

É em mim que tua imaginação dá voltas,

livre, solta, em constante movimento.

Quando criares teus projetos,

redemoinhos e espirais trarei a ti, convergindo idéias.

Sou teu arrebatamento; teu empenho e persistência.

Lucio Abbondati Junior

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segunda-feira, dezembro 03, 2007

UM ESPETÁCULO DE DANÇA, VIDA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL

O planeta sofre e as pessoas começam a compreender a incerteza de um futuro cada vez mais presente.

Nossas crianças do século XXI, antenadíssimas com todas as informações disponíveis e a sensibilidade peculiar da infância, nos cobram, cada vez mais, ações efetivas pela salvação do planeta e de seu viver futuro.

Entretanto, mais do que preocupadas ações pontuais aqui e ali, sabemos que somente com uma compreensão profunda e abrangente, teremos continuidade no comportamento diário de cada um de nós.

Portanto, mais uma vez, educação é a palavra chave e conhecimento assimilado com prazer traz frutos legítimos e constantes.

Para uma boa colheita, a Camarim Escola de Dança promoveu parcerias ao longo de todo ano de 2007, com o objetivo de estimular a reflexão e as atitudes sócio-ambientais corretas, a todos os seus alunos, pais e professores gerando um engajamento real na questão do viver bem no pequeno planeta Terra.

Coroando este ano de atividades o espetáculo REINVENTE E RECICLE SEUS VALORES, apresentará figurinos, cenários, coreografias e músicas “recicladas”, prestigiando o conceito da reinvenção e da utilização de materiais sob um olhar diferente do comum, mais lúdico, mais criativo.

Nos figurinos, por exemplo, materiais descartáveis de uso diário se transformarão em pequenas “jóias” já que a idéia não é vestir os bailarinos com lixo, mas sim, mostrar outras possibilidades para objetos comuns de consumo do nosso dia-a-dia.

Conhecimento, prazer, arte, educação. Agora e todo dia, só assim conseguiremos fazer nossa parte na salvação de nossa querida e compartilhada casa, o planeta Terra.

Espetáculo REINVENTE E RECICLE SEUS VALORES

Teatro Municipal de Niterói

Dias: 14 de dezembro às 20 horas

15 de dezembro às 16 e às 20 horas

16 de dezembro às 18 horas

Lucia Vasconcellos Abbondati

domingo, novembro 11, 2007

2007 - O ANO DA COLHEITA

Estamos plantando há dezoito anos.

Plantamos sonhos, filhos, árvores, amigos, realizamos idéias, criamos realidades. Aquelas que queríamos, privilégio para poucos.

Entretanto, queremos mais. Sempre mais, é claro.

E muitas vezes nos sentimos injustiçados por não alcançarmos o desejado, seja na qualidade do feedback, seja na apreciação alheia, ou no retorno do investimento financeiro.

Assim em certa ocasião, queixei-me ao meu amigo astrólogo José Maria Gomes Neto, do porque de não vir o momento tão esperado da colheita, aquele com sentido de férias tropicais, sem preocupações, um "dolce far niente".


Perguntou-me se já havia visto um filme com a Sally Fields ("Places in the heart - Um lugar no coração"), no qual ela tinha uma fazenda de algodão no sul dos Estados Unidos e óbvio, sofria com uma série de dificuldades para conseguir fazer a colheita a tempo de colocar o produto à venda, competindo com os grandes fazendeiros da região.

Sim, eu havia visto e de repente, dei-me conta do que ele queria dizer. O algodoeiro é uma planta ríspida, dura, seca, que se protege e machuca muito as mãos do coletor do algodão. Com certeza aquela colheita representava bem todos os obstáculos e a dureza que pode ser a conclusão de um trabalho.

A colheita é parte intrínseca e importantíssima de um compromisso que está sendo concluído mas que ainda não chegou ao fim.

A colheita é parte do processo, não um novo processo.

Muitas vezes pode significar o fim de um ciclo ou apenas uma pausa para o reinício do mesmo ciclo.

Na verdade só saberemos se houve uma finalização, quando e com os resultados que conseguirmos, caso sejam satisfatórios e conclusivos. Do contrário, cabe analisar em que fase nos encontramos, se enfim conseguiremos dar o salto quântico que tanto desejamos e o que falta para esse incrível mergulho na toca do coelho.(“Quem somos nós?”, o filme, vocês já viram ?)

Pois bem, 2007 vem sendo um fantástico período de colheita.

Com muito trabalho, empenho, comprometimento e também com algumas conclusões, que já que não finalizam nada, são realmente novas pontes para outros caminhos.

Em abril estivemos na Abrinq 2007 - Feira Nacional de Brinquedos que acontece anualmente em São Paulo e ficamos bem contentes com a exposição dos jogos criados pelo Lucio, que mais uma vez, estavam em destaque no estande da Xalingo.

A novidade do ano é a nova roupagem do jogo "Caçada ao Tesouro" que foi vestido com os personagens do desenho animado Padrinhos Mágicos e que ficou bem bacaninha. Com certeza vai alavancar as vendas, já que a criançada adora o desenho. Benefício do licenciamento agregado a um bom produto. Assim é !

Em maio tivemos uma agradável surpresa, que acabou nos mobilizando pelo resto do ano.

Em uma conversa com Saidul Rahman Mahomed e com José Carlos respectivamente editor e diretor da Qualitymark Editora, fomos convidados a apresentar um livro sobre jogos, para publicação imediata, visando o lançamento em agosto de 2007, no Conarh – Encontro Nacional dos Profissionais de Recursos Humanos - o grande segmento da editora, voltado para o setor de negócios, comunicação empresarial, administração, gente e trabalho.

Adoramos! Era o que estava faltando para darmos acabamento a textos, argumentos, teses, experiências e conhecimentos acumulados por 18 anos. O mais difícil foi selecionar do material que já tínhamos o que era mais importante para um primeiro passo e adequá-lo a uma linguagem objetiva e coloquial, mas que também fosse agradável de ler.

Trabalho feito, tivemos o prazer de contar com a colaboração de amigos queridos, pessoas encantadoras e profissionais valiosos na participação do texto do Prefácio e nas opiniões da contracapa.

O prefácio foi escrito por Rejany Dominick, que é Doutora em Educação, História e Filosofia pela Unicamp e Professora da Faculdade de Educação da UFF – Universidade Federal Fluminense - que brilhantemente introduz o leitor as possibilidades inusitadas que lhe serão apresentadas adiante. Seu texto é pleno de conteúdo, um refresco de bem humoradas reflexões.

Os comentários da contracapa foram escritos por Renata Palheiros, que é Produtora de Cinema, formada pela UFF, que vem trabalhando conosco em nossa passagem pela televisão aqui em Niterói. Renata é nossa aliada no MULTIDÉIAS - Um programa de tv que valoriza o seu tempo e respeita a sua inteligëncia , que esteve no ar por dois anos e meio e que voltará em breve.

José Carlos Garcia escreveu o seu comentário, argumentando sobre a importância do lúdico nas dinâmicas interpessoais, focando na área jurídica, já que exerce as funções de Juiz Federal.

Ficou muito interessante perceber como em duas áreas de trabalho tão distintas e, sem que conversassem entre si, os dois produziram argumentos e textos muito semelhantes. Vale conferir.

A capa ficou por conta de Wilson Cotrim, que faz parte da equipe Qualitymark e que já havia feito a capa de meu primeiro livro Como parar de fumar através da programação mental. A editora é bastante flexível e gosta da participação e de sugestões dos seus autores na composição do livro. Em ambos pudemos palpitar a vontade. Neste, em particular, oferecemos a imagem de uma pintura de um artista japonês do século XVIII, que foi admiravelmente composta por Cotrim. Bacana, não? A capa vem sendo bastante elogiada por todos. Aliás, o conteúdo também.

“Jogos & Soluções Interativas – Sua Importância para o Universo Corporativo, a Educação, a Saúde e as Relações Interpessoais no Séc. XXI”

Este é o título de nosso livro. Síntese de 18 anos de trabalhos e experiências variadas na produção cultural e no uso e implementação do lúdico e seus aspectos criativos para gente de todas as idades.

Algumas pessoas não entendem como o lúdico pode fazer parte de tanta coisa simultaneamente ou em áreas que elas consideram estanques. Ou como brincar e jogar e fazer arte pode melhorar a saúde e a qualidade de vida geral da pessoa.

Bobagem! Nosso livro é para você mesmo, que aprendeu que tudo é linear, que só existe uma resposta certa e que o melhor mesmo é fazer tudo igual para não correr o risco de errar, pagar mico, perder o emprego.

Fazer tudo como sempre foi feito, caríssimo, não é mais possível num mundo globalizado, virtual, onde as transformações são exponenciais e instantâneas e temos, diariamente, de flexibilizar nossos conceitos, agir rapidamente e estar pronto, sempre, agora, já !

E nesse turbilhão de informações e possibilidades, saber filtrar o que é importante, saber criar e inovar sem medo de errar e sem deixar o estresse te jantar é arte para poucos, que nós estamos ensinando.

E aí, quer aprender? Então leia JOGOS & SOLUÇÕES INTERATIVAS e depois converse conosco, exponha suas dúvidas, suas experiências, observações. Será bacana!

Como previsto, em fins de agosto, lançamos o livro no Conarh 2007, no estande da Qualitymark Editora. Foi uma excelente experiência, já que também tivemos a possibilidade de conhecer a feira e fazer muitos contatos promissores.

Na semana seguinte, voltamos a São Paulo para a feira Escolar & Paper 2007, que abrange todo o setor de papelaria, com suas mil e uma opções de produtos, mais algumas fábricas de brinquedos – os considerados educativos – como no nosso caso a Xalingo.

A feira acontece no Anhembi e lá fizemos uma palestra sobre a importância do lúdico para os adultos e como os jogos e brinquedos ainda são subestimados em nosso país, inclusive pela própria indústria de brinquedos e jogos. Problemas como a sazonalidade do produto, a faixa etária do público-alvo – sempre infantil - as
poucas opções e oportunidades criadas para a difusão e ampliação do mercado, enfim, muito pode ser feito para alterar o atual quadro da produção nacional basta procurar quem consegue enxergar soluções. Alô indústria, alô abrin, os chineses já estão por aqui!

Também foi bastante gratificante conhecer esta feira nacional, que tantos negócios produz e os contatos feitos certamente irão gerar outros frutos e caminhos para o futuro.

Aqui em Niterói fizemos o lançamento de JOGOS & SOLUÇÕES INTERATIVAS na Livraria Gutenberg sob os auspícios do Sr. Antônio e de sua equipe.

Vender livros exige um profissional especial, que ame profundamente o produto de seu negócio, para que possa ser honrosamente chamado de livreiro, Seu Antônio é assim. Um amante dos livros e da literatura, que adora poesia e, em particular, os escritos por seu conterrâneo José Régio – “Só sei que não vou por aí” !

Foi uma noite especial, repleta de amigos queridos, dos familiares e cercados por muitos e muitos livros.

No Rio de Janeiro, fizemos a noite de autógrafos na Livraria da Travessa do Shopping-Leblon. É um espaço encantador! Lá também estivemos com nossos amigos que moram no Rio e nos encontramos com velhos amigos e amigas, que não víamos há muito tempo. A emoção rolou solta. Foi muito bom! O buffet sugerido pela editora foi bastante competente e delicioso, aliás, vale lembrar o excelente trabalho de Aline, a assessora de imprensa da Qualitymark, que vem conseguindo espaço para falarmos sobre o livro em diversos sites ligados a área de recursos humanos e que está sempre disponível a nossas sugestões e dúvidas.

No meio disso tudo, ainda participamos da Bienal Internacional do Livro 2007, aqui no Rio de Janeiro, convidados pela editora e também pela Unilasalle, em cujo estande apresentamos nossa palestra sobre o lúdico com o slide show atualizado mostrando também toda sua implicação na saúde. As pessoas se espantam em ver como tudo o que somos e o que fazemos está interligado e que doenças, fobias e tantos outros distúrbios típicos do fim do século passado, podem ser saneados com mudanças simples de atitude, passíveis a todas as pessoas.

2007 ainda não acabou e continuamos com a nossa colheita.

São palestras, treinamentos, workshops para diversas empresas e instituições que desejam ampliar suas relações de trabalho gerando novas capacitações a seus colaboradores, sejam funcionários, colegas, alunos.

Não sei, não. Acredito que 2008 trará mais pontes, mais caminhos, outras estradas a percorrer, novas gentes a conhecer. Tudo bem! Adoramos viajar!

Até breve !!!!

Lucia Vasconcellos Abbondati

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quinta-feira, novembro 30, 2006

MINHA ESCOLA DE SONHO

Minha escola de sonho teria muito da que ensinou Arquimedes em Alexandria, sem tolher-lhe a criatividade;

Teria professores como Sócrates, que deram espaço e voz a alunos como Platão, sem medo de também aprender com seus discípulos o tanto que pretendiam ensinar;

Teria paredes móveis ou transparentes que não limitassem, confinassem ou escondessem o mundo e o viver, pois é neles que cada aluno irá existir;

Minha escola de sonho não ensinaria o que não pudesse mostrar onde se usa; não limitaria o prazer ao horário do recreio e faria da curiosidade a mola mestra do aprendizado. Nela, a teoria sempre estaria subordinada à prática e decorar não seria uma alternativa necessária.

Minha escola de sonho levaria mais em conta o que pensam os alunos e lhes daria espaço para que pudessem brilhar e demonstrar como vêem o mundo.

Teria a criação e a inventividade como principal disciplina, a qual todas as outras matérias estariam subordinadas, pois é do que ainda vai ser criado que o mundo necessita para se reciclar todos os dias e não apenas do que se aprendeu no passado;

Minha escola de sonho teria como matéria primordial, a capacidade de dialogar, propor idéias, refletir e saber lidar com o outro, já que todos os que ali estão, viverão entre outras pessoas;

E finalmente, minha escola de sonho nunca desprezaria o sonho de cada um de seus alunos e professores, pois é deles que o futuro mais se alimenta.

O sonho seria o verdadeiro norte, prumo e meta de minha escola, pois é a única coisa que faz com que pessoas queiram acordar todos os dias de manhã, ávidos para moldar a realidade em que vivem.

Lucio Abbondati Jr

quarta-feira, novembro 29, 2006

LIVRO - ESPAÇO, TEMPO E ALÉM

Para aqueles que viram o filme “Quem somos nós” (já comentado abaixo neste blog), o nome Fred Allan Wolf não é desconhecido. É aquele físico quântico com ar de professor Ludovico, genial personagem cientista da Disney, que se maravilha ante as descobertas da vida. Ele e Bob Toben escreveram este livro absolutamente fascinante - ESPAÇO, TEMPO E ALÉM – Ed. Cultrix – Pensamento - onde através de uma didática inovadora, ele nos adentra dentro dos mistérios da física quântica, dos fenômenos paranormais e suas possíveis explicações à luz da ciência.

A obra utiliza um sistema realmente muito interessante para explicar cada caso, que deveria ser seguido por todos os livros didáticos que lidam com assuntos espinhosos – o método socrático. Ao apresentar um fato novo sobre um assunto, ele demonstra através de um enunciado curto o que a idéia propõe, exemplifica-o então através de uma imagem simplificada (muitas vezes jocosa) e, após o leitor ter absorvido a informação e compará-la ao que sabe, chegando a suas próprias conclusões, é então encaminhado por letras que permanecem ao fim da página, a páginas no fim do livro onde se encontra a base teórica que fundamenta cada conceito apresentado. A teoria só é inserida posteriormente à fusão do novo conhecimento aos conceitos que cada leitor trás em sua bagagem.

O livro é um achado insubstituível para os interessados no tema e os profissionais da didática muito tem a ganhar no aprendizado de como a informação é passada nesta obra.

Lucio Abbondati Jr

terça-feira, novembro 28, 2006

FALANDO DE MÚSICA BRASILEIRA

A diversidade e riqueza de nossa MPB vem sofrendo interferência cruel e sistemática dos sons do mundo. Os últimos anos trouxeram mais do que protestos sociais. Os sons chegaram plenos de uma violência sonora e verborrágica que pouco lembra melodia, estilo, ritmo e letra características elementares do que considera-se música. Sua expressão pode ser original e legítima, uma referência dramática dos tempos que vivemos, principalmente nos meios urbanos, mas como experiência musical é, no mínimo, lamentável.

Para amenizar tanta agressividade, sugiro o que há de melhor nas canções de um músico brasileiro bem pouco reverenciado a meu ver – Almir Satter.

Descoberto pelo grande público num festival de MPB décadas atrás, foi personagem violeiro em uma novela de grande repercussão nacional, pela extinta Rede Manchete – “Pantanal” – e, então, começou a ser mais tocado e conhecido do público alargando seus horizontes e os nossos.

O cd “Um violeiro toca” é uma jóia para encantar os sentidos. Apresenta com vigor e maestria arranjos e composições de uma beleza rara e plácida, de um Brasil enorme, interiorano, com dimensões intangíveis. São versos de uma poesia forte, significante, vívidos. São canções que em sua pureza tocam a alma, mas não são tolas, como a princípio podem imaginar os citadinos, são pungentes e ricas, e muito belas. Fazem relembrar músicas de Dorival Caymi, Milton Nascimento, Alceu Valença, Amelinha, Taiguara... em que cada um do seu jeito e a seu tempo mantinham esse mesmo lirismo.

É difícil escolher a melhor faixa pois todas são excelentes. Talvez a minha preferida seja “Água que correu”, ou talvez “Varandas”, ou quem sabe...

Lu Abbondati

quarta-feira, setembro 20, 2006

DA SAUDÁVEL E FANTÁSTICA INUTILIDADE

Espera-se de um homem responsável, no mínimo, que ele cumpra suas obrigações e que encontre sua serventia no mundo... “A obrigação vem em primeiro lugar”; reza o mote calejado.

Propomos então a nossos filhos que se tornem úteis, que sirvam e cumpram seus deveres, ensinando-os a procurar uma função na existência. Dizemos a eles: - Assim é a vida, o normal. Naquilo que estabelecemos como normalidade, entretanto, não percebemos devidamente a força das palavras com que constantemente nos expressamos. Na maioria das vezes, empregamo-las, sem sequer questionar sua validade e conseqüência.

Quando instruímos nossos filhos para que se tornem úteis, esquecemo-nos que o termo utilidade aplica-se melhor a coisas que podem ser usadas, que se desgastam até a destruição. Sabemos para que servem as coisas úteis: de um capacho esperamos poder limpar os pés; da vassoura, varrer o lixo e da lixeira, contê-lo; de um elevador, nos transportar contra as forças da gravidade, para cima e para baixo, sem variações ou surpresas... As coisas que nos cercam são úteis ferramentas no dia a dia, mas, sem dúvida alguma, continuarão sempre sendo apenas objetos, meios para servir a uma função.

Quando esperamos que nossos filhos encontrem uma serventia na vida, termo que no passado se aplicava bem a escravos, não questionamos muito se é realmente isto o que pretendíamos – transformar-lhes na versão de tempo presente de modernos servos - os robôs - sem alternativas ou vontade própria. Lembremo-nos sempre que:

- Quem faz suas obrigações, o faz por ser obrigado, não por exercício de vontade;

- Arca com impostos, aquele que sofre imposições e ameaças;

- Torna-se útil, tudo o que se permite ser usado;

Estas palavras não deviam ser as únicas nem as principais a serem ensinadas aos filhos, para que estes se tornem homens responsáveis. Melhor seriam empregadas se aplicadas a objetos e não a crianças, acostumando-as a serem tratados como coisas, com função definida. Não o somos ferramentas ou utilitários ou ao menos, não devíamos ser.

As pessoas acostumaram-se a não mais questionar a perda de sua humanidade. Vivemos num mundo onde se deixa de acordar por que o sono descansou o corpo; desperta-se para ir ao trabalho; cumprir um programa de obrigações. Normal, dizem todos...

Não se come mais para saciar a fome, nem esta é quem sinaliza a necessidade de repor reservas; engole-se rápido um alimento em 60 minutos cravados; para se correr de volta a cumprir o programa de obrigações pré-estabelecidas. Normal, bradam novamente.

Não se dorme por que o sono nos lembra de repor energias e sim por que a jornada estipulada do programa de obrigações determina a hora necessária para acordar, estabelecida pelo timer robótico do contrato de trabalho. Normal, dizem por aí, muito à contra-gosto.

Anseia-se desesperadamente por 30 dias de liberdade em 335 de escravidão, numa aceitação que de isso é o normal, já que a maioria o faz, sem questionar.

Rendendo o esperado ou não, todos concordam em cumprir uma carga fixa de horário no serviço, mesmo isto instale o enfado, o desencanto, a desilusão e o descaso em todos que ali estão por imposição da obrigação, reduzindo a tão ansiada produtividade. São as horas em que me lembro dos antigos livros de história do Brasil, que explicavam por que os escravos da África foram trazidos para trabalhar aqui – “...por que nossos índios se mostraram preguiçosos e indolentes para o trabalho na lavoura, na condição de escravos”. O que esperavam os senhores da época, naquelas condições? Alegres índios cantores como num musical, indo para a labuta escrava, com empenho e perseverança? Qualquer semelhança entre nosso comportamento “indígena preguiçoso e indolente” e o estado de ânimo dos atuais trabalhadores, não será mera coincidência...

Vive-se mais emoção na novela, no Big Brother, na fofoca diária do jornal, no desempenho do time do coração, na reunião da novena ou na sessão do templo, do que na vida pessoal, onde escasseiam opções e decisões próprias de cada indivíduo, com fins de semana aterradoramente monótonos, até que a segunda-feira chegue e novas obrigações determinem a todos como ocupar o dia e a atenção.

E esperamos que nossos adolescentes anseiem para se tornarem adultos... Mas logo esta espécie de adulto – o escravo consentido? Não admira que se droguem cada vez mais e se desesperem. É o resto de lucidez que lhes resta, lhes dizendo que o viver adulto é insano.

No afã de inculcarmos esta pretensa normalidade mecânica nas crianças, pouco nos lembramos, contudo, da importância da inutilidade... Dos atos que praticamos em nome não da serventia, mas do exercício da curiosidade, da criação e da experimentação; as ações que são desencadeadas pelo ato da escolha e decisão pessoal,sem obrigatoriedade.

Se validássemos a idéia de que tudo na vida deveria ter uma finalidade pragmática, teríamos que ignorar toda e qualquer manifestação artística. Afinal, para que serve a arte? Na prática, para nada!!! E ainda bem, pois se esta se pusesse exclusivamente a serviço da obrigação, tudo se resumiria a uma linha de montagem padronizada.

Pelo princípio da utilidade, por que uma pessoa deveria perder tempo escrevendo uma poesia? Ou pintando? Para que buscar o belo na escrita, se as coisas devessem ser sempre simplificadas e uniformes? E compor uma música então? Outra inutilidade de quem vive “cigarreando” em vez de obrar como uma formiga operária...

Confunde-se ainda hoje, a inutilidade do ato, com o vazio da nulidade, pois não se reconhece como válido o ato criador não voltado para a produção do ganho financeiro e pessoal. Com isso, desqualifica-se o talento de cada indivíduo. A criação, quando movida apenas pela obrigação, nada mais é que uma nova imposição. Há de se permitir a existência do criar, pelo criar. Toda manifestação artística decorre de um ato inútil, contudo, essencial, pois dela surgem as correções de rumo que marcam o caminho do homem neste planeta.

Quem se dedica ao inútil por uma pulsão interna, o faz como exercício de vontade, não porque foi obrigado ou por condições impostas, mas por que expressa em sua criação, o ânima, que o faz vivo. Aqueles que se permitem exercitar inutilidades, manifestam-se através de sua criação, que lhes propiciará continuidade. Os que abdicam de fazer escolhas e conformam-se em seguir ordens e obrigações, agonizam lentamente por dentro no dia a dia, sentindo que o tempo se esvai e as forças lhes faltam, sempre que se dirigem para o exercício da útil obrigação diária.

Nossa sociedade atual martela ainda uma velha cantilena decrépita de que o trabalho faz o homem, oriunda de um tempo onde existiam corporações que nominavam pessoas por sua profissão e assim eram tratados – Herr Bauer (senhor padeiro), Mr. Smith (senhor ferreiro). Muitos levam isso tão à sério ainda hoje, que até se qualificam por seu ofício, confundindo-se com ele de forma indissolúvel (...aquele é o Dr. Fulano de tal).

O adestramento social quanto a esta conduta é tanto, que em algumas pessoas causa estranheza encontrar profissionais fora de seu ambiente de trabalho, como o médico, o odontologista, a professora e outros, em supermercado, cinema ou divertindo-se, como se seu mundo fosse confinado ao local de trabalho. Estranha-se que um profissional não esteja disponível a qualquer hora do dia ou da noite, pois espera-se que ele “exista” apenas para servir. E este é apenas um dos riscos do homem assumir ser apenas a função que exerce. Limitado a uma simples utilidade, não alcança todo o seu potencial.

A todos é ensinado que devem satisfazer-se com sua função e utilidade. Pedem-nos que nos orgulhemos de nossa utilidade na vida e do cumprimento de nossas obrigações. Quantos, entretanto, são ensinados a orgulhar-se de seus atos inúteis? Dos gestos que produzem inutilidades essenciais como a arte? Quantos hoje são estimulados a praticar alguma atividade por simples exercício da vontade, espontânea, criação pela criação, apenas para ver no que irá dar? Muito poucos. E por isso mesmo, poucos são os humanos que mantém intacto quando adultos, o seu talento.

Diz a revista Exame de agosto de 2006, que 38.000 postos de trabalho no alto escalão não encontram quem os ocupe, o que vem desencadeando uma desenfreada guerra pelo aliciamento de funcionários eficientes das empresas. Falta nos postulantes aos cargos, em tudo semelhantes no número de MBAs e universidades, qualidades essenciais como talento, iniciativa, visão, criatividade, capacidade de pensar por si mesmo e adaptabilidade - qualificações que não podem ser ensinadas através de fórmulas prontas, cursos de renome ou leitura de manuais de gerência e marketing.

Num mundo de padronização de condutas, modas impostas por modelos pré-fabricados, onde pessoas procuram se transformar em clones de quem está em evidência, é o ato inútil que prepara alguém para o ainda inexplorado, para lidar com a descoberta com encantamento e não com o terror da ignorância do que fazer.

Neste 21o século de mudanças tão drásticas quanto inesperadas, é justamente no exercício do talento criativo e não num simples título profissional, que repousa a única e verdadeira forma de reconhecer o valor e distinguir um ser humano do outro.

Lucio Abbondati Jr

quinta-feira, setembro 14, 2006

HISTÓRIA PREMIADA

Lu Abbondati (ou, para quem conhece, Lucia Vasconcellos), minha parceira produtora cultural há 18 anos, tem mais qualidades insuspeitas do que a maioria das pessoas conhece. Na Bienal de Livros do Rio de Janeiro, em 2003, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) a agraciou como escritora, com a menção honrosa no Concurso Pró-Leitura. Seu texto “Buck não lia jornais”, delicioso, fala do saborear da leitura quando associada à curiosidade, com encanto e singeleza. Em homenagem a vocês, eu os contemplo com ele. Boa leitura!!!


BUCK NÃO LIA JORNAIS

Lucia Vasconcellos (Lu Abbondati)

Quinta-feira, 16 horas.

- Crianças! Turmaaa! “Hora da História” ...!

- Ah, não! A tarde está tão bonita... Nós preferimos brincar aqui fora, professora - disse impositivamente a menina ruiva.

- É isso aí! Essa coisa de “Hora da História” é uma chatice! Não tem história legal! - reclamou um menino.

- É sempre a mesma coisa - completa Gracie. E empoando a voz – “ Então crianças, qual a moral da história? O que podemos aprender com a fábula “ A lebre e a tartaruga “?

- Que primeiro temos que vencer, depois dormir! - grita assanhada Mariana, fazendo todos os trejeitos que adora.

- Ah, professora, as histórias são todas iguais, tudo coisa pra criancinha! Eu já tenho dez anos, a Gracie também, a Mariana faz dez no mês que vem; o Filipe e o Bruno têm quase onze! Só Priscila que tem nove, mas ela também já entende tudo e acha uma droga essa coisa de príncipe encantado, bichos que falam e finais felizes, não é mesmo Priscila?

Todos olham para a menina, que tenta responder:

- Bem, na verdade eu até que gos...

- Pois é - interrompe Olga - A gente não quer mais perder tempo com essa história de “Hora da História”. Encheu! Cansou !

Eulália percebeu que estava num momento crítico. Precisava de uma nova estratégia, eficiente, para que aquelas crianças não se perdessem, não se afastassem, talvez definitivamente, das histórias, dos livros.

A turma estava em balbúrdia. Satisfeitos pensavam que haviam se livrado de mais uma obrigação chata. Não conseguiam compreender o valor das histórias. Haviam passado do tempo no qual a fantasia e o sonho imperavam, o bem sempre vencia o mal, onde tartarugas e lebres, bem como bonecas de pano e sabugos de milho falavam, viviam. Era agora ou nunca e ela tinha que acertar. Respirou fundo e batendo palmas e assobiando, conseguiu a atenção da turma.

- Muito bem, muito bem, disse ela em bom tom. Acho que vocês têm razão.

- Êeeeh! - bagunça geral.

- Alô, alô, vocês têm razão quando dizem que não são mais criancinhas, que querem coisas mais apropriadas para sua idade. Não, não, Mariana, nada de desfile de moda agora. Sente-se !

- Ah, droga! - fez a menina num muxoxo.

- Quero que vocês afastem as carteiras e fechem as cortinas, prosseguiu Eulália.

- Todas? - indagou Filipe.

- Sim, todas.

- Mas prá que, professora ?

- Vamos abrir espaço aqui no meio da sala e... assim, assim mesmo, Bruno, quero todos sentados no chão, um ao lado do outro. Sem assanhamento, vamos!

- No final das contas vamos ter história - comenta rabugentamente Olga.

- Sim, vamos. Mas esta é uma história bem diferente das que vocês conhecem e além do mais quero que vocês falem, perguntem o que quiserem, comentem o que der vontade enquanto conto a história. Está bem?

Isso era diferente, muito diferente do que estavam acostumados: ouvir em silêncio até o fim e só depois comentar o que haviam ouvido, etc., etc.. Todos se entreolharam vivamente, antecipando uma bagunça divertida e, claro, nenhuma história.

A professora começou.

- Este é um livro de aventura para adultos e jovens e foi escrito há muito tempo. O nome do autor é Jack London e a história chama-se “Chamado Selvagem”. Começa assim: “ Buck não lia jornais.”

- Não lia... Não lia porquê professora, era burro ? - instigou Olga.

- Ele prefere livros! - gracejou Filipe.

- Vai ver que não sabia ler - disse Mariana.

- Então era burro! - insistiu a outra.

- Podia ser só pequeno, sua boba! Meu irmãozinho de quatro anos não sabe ler porque só tem quatro anos.

- É, mas tem adulto que também não sabe ler, é burro! - reforçou a primeira.

A professora Eulália sorria feliz. Percebeu que acertara na escolha e que, rapidamente, antes que percebessem, estariam em silêncio, ávidos, escutando, imaginando... Será?!

- Quem mais não sabe ler? - Perguntou então. Só gente sabe ler, é isso ?

Todos concordaram meneando as cabeças.

- Então, quem será Buck? Uma criança pequena, um menino que não aprendeu a ler ainda, como o irmãozinho da Mariana? Ou talvez um adulto que não teve oportunidade, mas que ainda poderá aprender a ler? Ou ainda uma pessoa burra ?

- Ou um bicho - arriscou Bruno - Bichos não sabem ler, a não ser que seja mais uma fábula, porque aí todos os bichos falam, lêem, cantam, fazem tudo.

- O que vocês acham, meninos ? Pode ser um bicho ?

- Ué, professora, como é que a gente vai saber? - perguntou Mariana.

- Que tal a gente deixar a professora Eulália contar a história? - argumentou Gracie - Assim não saímos da primeira frase!

- Ah! Muito obrigada, Gracie. Todos concordam? Ótimo! Continuemos.

E assim, naquela “Hora da História” as crianças conheceram Buck, um grande cão peludo, que vivia numa boa casa, com alimento e abrigo e que não sabia, mas sua vida iria mudar muito, completamente.

Muitas outras “Horas da História” foram necessárias para que toda a aventura fosse contada. Muitas mesmo, mas no fim, as quintas-feiras, às 16 horas eram os horários mais ansiosamente esperados por todos. Dezenas de desenhos foram criados, todos os sentimentos vivenciados e certamente, milhares de perguntas foram feitas, mapas foram vasculhados para se conhecer melhor a trajetória do cão herói nas terras geladas do Alasca.

” Buck não lia jornais.”, mas enriqueceu com muitos livros, escritas e histórias a vida daquelas crianças a partir de então.



sexta-feira, agosto 25, 2006

FAZ TODO O SENTIDO

Para avivar a percepção e o discernimento nos dias de hoje, aqui vão duas citações de uma pessoa realmente muito especial:


"Nossas vidas começam a findar, no dia que nos tornamos silenciosos sobre as coisas que importam"
"Our lives begin to end the day we become silent about things that matter"

"No fim, nós nos lembraremos não das palavras de nossos inimigos, mas do silêncio de nossos amigos"
"In the end, we will remember not the words of our enemies, but the silence of our friends"

Martin Luther King
(1929 - 1968)

sábado, agosto 19, 2006

O PODER OCULTO DO CINEMA

Quando ouço pessoas falando que o cinema irá morrer com o advento dos home theather e dos DVDs, me espanta a dimensão da ignorância humana.

Desde criança ouço um ditado que diz: “O cinema é a maior diversão”. Uma expressão tão válida quanto a limitada afirmação de que a principal função das escolas é retirar os jovens das ruas – explicação adequada a presídios e não a um local formador de seres humanos.

O problema é que em nossa sociedade, são definições como estas que determinam as condutas humanas e sendo assim, da mesma forma em que a escola acabou por se transformar em depósito e não em local de aprendizado, o cinema está se transformando num local de diversão, visto apenas como passatempo e que pode ser substituído com vantagens por um bom aparelho de DVD e um telão.

Acontece que não pode. Suas verdadeiras características não podem ser reproduzidas em uma sessão doméstica, como veremos a seguir.

Por incrível que pareça em sua história, o cinema continua sendo uma mídia de informação ainda não compreendida em sua totalidade, tanto pelo público quanto por aqueles que efetivamente o fazem. E desta desinformação, emergem conceituações estapafúrdias que, longe de contribuir para sua manutenção e continuidade, levam cada vez menos pessoas as salas de exibição, agravando mais ainda a absoluta ignorância de suas vantagens, com visível prejuízo social.

O meio cinematográfico é muito mais do que um mero passatempo ou parte de uma indústria de diversões caça-níqueis, como muitos detratores salivam ao afirmar.

Ele também passa ao largo de ser unicamente uma forma de arte, como querem fazer crer respeitados diretores e cineastas, que descambam para definições simplistas. Do alto de escassas imaginações, ouvi e li em vários depoimentos de profissionais do meio, absurdos inesquecíveis que podem ser sintetizados aqui, nestas duas frases:

- “O cinema não deve ser usado para contar histórias, é um meio com a única finalidade de se fazer arte. Aos que quiserem contar histórias, sugiro procurarem a TV!!!”

Através de uma opinião tão abalizada quanto limitada, depreende-se que para eles, o meio físico é o um dos principais determinantes da arte fílmica, senão o único e sendo assim, já que o cinema é arte e como arte não deve se curvar a ser inteligível, o cinema não deveria ser inteligível. Ponto! A TV não, esta é algo que prevê em seu “produto” uma palavrinha delicada para certo grupo de cineastas, um início, meio e fim, o que a baniria para sempre de ser um meio artístico...

Acontece que a arte não está no veículo ou na ferramenta utilizada e sim na competência do artista em manifestar sua intenção. Encontra-se nos olhos de quem faz e vê e não nos meios que emprega.

Comparar suportes físicos de características diversas como a TV e o Cinema, apenas por que ambos exibem filmes, é como considerar a escultura e a pintura, privilegiando uma sobre a outra, apenas por que ambas lidam com a imagem.

O veículo de uma imagem deveria indicar apenas como uma manifestação pode ser vista e não determinar sua qualidade. Nenhum meio é menor, apenas o pensamento limitado o faz assim, solapando a curiosidade e a capacidade de pensar novas soluções.

O cinema tem sim, certas características que a TV não pode duplicar, não importa o seu tamanho. E isto se prende a condições privilegiadas que o meio apresenta, as quais mesmo os produtores diretos não entendem ou se aproveitam. Vamos a elas:

  • Para ir ao cinema precisa-se sair de casa, o que implica intenção e escolha de um filme, descobrir onde este está passando, qual o horário adequado, dispor das condições materiais para pagar o ingresso, vestir-se, usar um meio de transporte para chegar ao cinema, comprar o ingresso (o que agrega um valor ao que vai ser visto) e etc.

Tudo isto para o cérebro, atua como um ativador automático de funções, semelhante ao que nos mobiliza em direção a um trabalho ou obrigação urgentes, exceto que neste caso, o fator atuante é o PRAZER, o que cria receptividade automática para o que será dito ou visto na tela. E tudo atua como novidade para os instrumentos de percepção corporal: o cheiro da sala de exibição, as acomodações físicas do lugar, o local aonde se sentar e as respectivas sensações táteis da poltrona, o encontro com outras pessoas e seus diferentes rostos, os diversos sabores dos confeitos, pipoca, refrigerantes, chocolates, encontrados na bomboniere e etc.

É um verdadeiro parque de diversões sensoriais para o cérebro! Estimula toda a sorte de sinapses que a casa, lugar mais que conhecido e sítio das rotinas domésticas, não pode substituir. Nossas lembranças se formam pela introdução de novos fatos através da área de memória recente e esta arquiva o relevante na área da memória antiga, mas apenas se estes diferem dos registros de rotina. E é por este motivo que muitas pessoas nem se recordam se trancaram ou não portas, trouxeram ou não celulares consigo, desligaram ou não as luzes da casa e etc. Rotinas já estabelecidas equivalem a ações automáticas, com ausência de pensamento por parte do cérebro, na sua execução. Uma vida repleta de rotinas poupa tempo na hora de fazer as coisas, mas também incapacita o indivíduo para lidar com o que ele não conhece – um problemão num mundo em transformação vertiginosa, onde situações novas surgem de forma inesperada a toda hora.

Sair de casa por vontade própria para exercer um prazer, é exercitar o cérebro no uso de sensações combinadas (tátil, visual, auditiva, olfativa, gustativa e decisória), o que se torna cada vez mais raro hoje em dia, num mundo de obrigações impostas que freqüentemente estabelecem rotinas a serem seguidas. Assistir um filme em casa, sentando no mesmo local que já se conhece, fazendo as mesmas coisas, com todas as sensações já familiares, é simplesmente não desfrutar do novo - um bom método para criar limo mental..

  • Não há home-theather que simule o fato de que se está longe da geladeira doméstica e daquela fome que aparece do nada...! Ou mesmo do confortável banheiro de casa! Quantos desligam o telefone, celular ou interfone, ao assistirem filmes em casa, para não interromper a sessão? Como prestar completa atenção na trama, sem ser requisitado por filhos, parentes, vizinhos e amigos a qualquer minuto? Como relaxar e deixar para trás o pensamento das contas e obrigações que deverão ser feitas amanhã ou logo depois do filme?

  • A tela do cinema e suas imagens gigantescas, preenchem todo o nosso campo de visão; a cadeira de espaldar alto nos acomoda e abraça; o frio do ar condicionado nos envolve; o som com efeito “surround” nos cerca de todos os lados, transmitindo não apenas impulsos auditivos, mas também tátil-sensoriais com vibrações de baixa freqüência. O escuro garante que nossa atenção não possa ser desviada por nada, pois NADA está visível a não ser a o que vem da tela, o que torna esta mensagem comparável a uma sessão de hipnose, com impacto determinante no teor da mensagem.

Por uma hora e meia, em média, o espectador entregar-se-á de corpo e alma a percepção do enredo, do contexto onde os personagens se inserem e para eles transferirá seus desejos e emoções. Nada pode ser mais eficiente que isso, como meio de recepção. Dizia Frank Capra, um dos poucos diretores que perceberam e utilizaram este potencial em toda a sua plenitude que, ao produzir cada filme, assumia a enorme responsabilidade de não esmagar a esperança de seus espectadores e, aproveitando-se das condições favorecidas acima, incumbia-se de entregar-lhes uma mensagem tão poderosa que estes poderiam sair dos cinemas com um potencial transformador bem inscrito em suas almas.

Este sim, é o verdadeiro poder do cinema – a transformação do espectador.

Uma vez que o cérebro não distingue experiências reais das simuladas, já que ambas entram através do mesmo sistema sensorial e produzem ação nos mesmos sítios cerebrais, fisgado pela mensagem que lhe chega da tela, ele não poderá esquivar-se a mudar seu estado de espírito. Filmes que fazem rir liberarão endorfina sem nenhuma dificuldade e alegrarão o espectador, mesmo que este esteja deprimido. Em contra-partida, um filme que solape suas crenças e valores, também poderão deixá-lo arrasado. Já aquele que o faça refletir, o tornará questionador e o que o encantar, o arrebatará. E tudo isto, lembremos, em uma hora e meia de mensagem ininterrupta, sem competição de qualquer tipo de interferência física, em uma sala totalmente escura, através de uma brilhante tela que ocupa todo o campo visual, com som chegando aos ouvidos sem obstáculos, enquanto o corpo vibra com baixas freqüências, transmitindo sensações táteis.

Isso é dinamite pura para o cérebro!!!

Para deprimidos, 90 minutos de uma comédia equivalem a uma dose reforçada de anti-depressivos. Para idosos e acomodados mentais, uma hora e meia de exercício concentrado num “spa” para o cérebro, ao preço de um ingresso; para crianças, encantamento puro e magia num mundo tão cru e para o adulto, uma permissão para a reflexão sobre uma enorme gama de temas, sem resistência dos preconceitos. Daí a importância de se perceber seu real potencial. Nas mãos de um bom artista, um filme construirá vidas, nas de um irresponsável, marcará o espectador com sua incompetência.

A medicina é uma das principais áreas que muito se beneficiaria se utilizasse mais a ida as salas de exibição como um recurso terapêutico regular. Como médico, muitas vezes faço a indicação de filmes como instrumento de reflexão e questionamento para as pessoas que precisam repensar a condição de vida em que se encontram, em pacientes em estado depressivo, nos déficits de memória e nos estágios iniciais do Mal de Alzheimer, com resultados surpreendentes.

Como recurso cultural, o cinema é extraordinariamente necessário em sua função de propiciar encantamento, alegria e emoção e no seu todo, extrapola e muito, a condição de ser um simples local para a exibição de filmes.

E algumas pessoas ainda acham que seria possível prescindir de um instrumento com este potencial... Elas deviam mesmo é ir mais ao cinema, para exercitar sua percepção e sensibilidade.

Lucio Abbondati Jr

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